O escândalo envolvendo contratações vinculadas à Fundação Ceperj e à Uerj revelou um dos episódios mais graves de utilização da estrutura administrativa do Estado para fins político-eleitorais no Estado do Rio de Janeiro nas últimas décadas.
Mais do que irregularidades administrativas isoladas, as investigações conduzidas pelo Ministério Público Eleitoral apontaram para um modelo operacional estruturado de movimentação de recursos públicos que teria funcionado como base de sustentação eleitoral às vésperas do pleito de 2022.
A engrenagem da “folha secreta”
O ponto central do caso não foi apenas o volume de contratações temporárias realizadas fora dos padrões tradicionais de transparência administrativa, mas principalmente a forma como os pagamentos foram operacionalizados.
Foram identificadas 27.665 contratações temporárias vinculadas a projetos executados por meio da Ceperj e da Uerj, muitas delas sem publicação no Diário Oficial.
Segundo o Ministério Público Eleitoral, mais de R$ 220 milhões foram sacados em dinheiro vivo diretamente em agências bancárias, por meio de ordens bancárias individuais destinadas aos chamados beneficiários dos projetos.
A Justiça classificou esse modelo como uma “folha de pagamento secreta”, estruturada de forma a dificultar a rastreabilidade financeira e reduzir a capacidade de monitoramento por órgãos de controle como o Conselho de Controle de Atividades Financeiras.
Programas públicos usados como fachada
Outro elemento central revelado pelas investigações foi o uso de programas institucionais classificados como “Projetos Especiais” para operacionalizar a distribuição de recursos.
Entre as iniciativas mencionadas nos processos aparecem:
- Esporte Presente
- Casa do Consumidor
No papel, esses programas tinham objetivos sociais legítimos. Na prática, segundo o entendimento da Justiça Eleitoral, teriam sido utilizados para descentralizar recursos públicos em bases eleitorais estratégicas às vésperas da eleição.
Esse mecanismo permitiu a criação de uma rede de pagamentos pulverizados, sem vínculo funcional clássico com a administração pública.
O papel da estrutura política do governo
As decisões judiciais relacionadas ao caso reforçam que o modelo não operava de forma isolada dentro da administração, mas estava inserido no núcleo decisório da gestão estadual da época.
A cassação da chapa governamental por abuso de poder político e econômico indicou que a utilização massiva dessas contratações teve impacto direto no equilíbrio do processo eleitoral.
Investigadores passaram a classificar o mecanismo como uma espécie de “rachadinha institucionalizada em escala ampliada”, pela utilização da estrutura estatal para sustentação indireta de projetos eleitorais.
O desfecho no Tribunal Superior Eleitoral
Em março de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral manteve a condenação relacionada ao caso, reconhecendo a ocorrência de abuso de poder político e econômico associado à descentralização de recursos públicos durante o período pré-eleitoral.
A decisão consolidou o entendimento de que houve utilização indevida da máquina administrativa com finalidade eleitoral, reforçando a gravidade institucional do episódio.
Um marco na história recente da política fluminense
Pelo volume de recursos envolvidos, pela quantidade de contratações identificadas e pela sofisticação do modelo operacional utilizado, o caso da chamada “folha secreta” do Ceperj tornou-se um dos episódios mais emblemáticos da história recente da política do Estado do Rio de Janeiro.
Mais do que um escândalo administrativo, trata-se de um alerta institucional sobre os riscos da utilização da estrutura pública fora dos limites da legalidade e da transparência — e sobre a importância do fortalecimento dos mecanismos de controle no processo democrático.

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